Esboço histórico do misticismo europeu do princípio da era cristã até a morte de Blake
Se tentarmos representar o curso do Misticismo na Europa durante o período cristão pelo método comum de uma curva cronológica, mostrando por suas ascensões e quedas à medida que passa pelos séculos a ausência ou preponderância em qualquer época dada de místicos e pensamento místico, se constatará que os grandes períodos de atividade mística tendem a corresponder com os grandes períodos de civilização artística, material e intelectual. Via de regra, eles vêm imediatamente após, e parecem completar tais períodos: esses surtos de vitalidade em que o homem faz novas conquistas sobre o seu universo aparentemente produzindo, como seu último estágio, um tipo de caráter heroico que estende essas vitórias à esfera espiritual. Quando a ciência, a política, a literatura e as artes - a dominação da natureza e a ordenação da vida - atingiram o seu auge e produziram as suas maiores obras, o místico vem à frente; arrebata a tocha e a carrega adiante. É quase como se ele fosse a flor mais fina da humanidade; o produto ao qual cada grande período criativo da raça visou.
Assim, o século XIII expressou à perfeição o ideal medieval na religião, na arte, na filosofia e na vida pública. Ele construiu as catedrais góticas, deu o toque final ao sistema da cavalaria e nutriu os filósofos escolásticos. Ele tem muitos santos, mas não muitos místicos; embora eles aumentem em número à medida que o século avança. O século XIV é preenchido por grandes contemplativos; que elevaram esta onda de atividade a níveis espirituais, e trouxeram o vigor intelectual, o romance e a paixão do temperamento medieval, para incidir sobre os mais profundos mistérios da vida transcendental. Novamente, o século XVI, aquele período de vitalidade abundante que não deixou nenhum canto da existência inexplorado, que produziu a Renascença e os Humanistas e refez o mundo medieval, mal tinha atingido seu pleno desenvolvimento antes que a grande procissão dos místicos pós-Renascença, com Santa Teresa à frente, começasse. Se a vida, então - a grande e inquieta vida da raça - for descrita sob a metáfora gasta de um mar ondulante, cada grande onda à medida que se levanta das profundezas carrega o tipo místico sobre a sua crista.
A nossa curva, portanto, seguirá de perto a outra curva que representa a vida intelectual da humanidade. O seu curso será pontilhado e definido para nós pelos nomes dos grandes místicos; os possuidores de gênio espiritual, os desbravadores do caminho para o país da alma. Estes nomes estelares são significativos não apenas em si mesmos, mas também como elos na cadeia da história espiritual crescente do homem. Eles não são fenômenos isolados, mas estão relacionados uns com os outros. Cada um recebe algo de seus antecessores: cada um por suas aventuras pessoais a enriquece, e a transmite para o futuro. À medida que se avança, nota-se cada vez mais este poder cumulativo do passado. Cada místico, por mais original que seja, ainda deve muito à aquisição herdada de seus ancestrais espirituais. Esses ancestrais formam a sua tradição, são os exemplos clássicos nos quais a sua educação se baseia; e deles ele tira a linguagem que eles buscaram e construíram como um meio de contar as suas aventuras ao mundo. É com a ajuda deles também, muito frequentemente, que ele elucida para si mesmo o significado das percepções tênues de sua alma perplexa. De suas próprias experiências ele acrescenta a este estoque; e transmite uma tradição enriquecida da vida transcendental para o próximo gênio espiritual evoluído pela raça. Daí os nomes dos grandes místicos estarem conectados por um fio; e torna-se possível tratá-los como assuntos de história em vez de biografia.
Foi dito que este fio forma uma curva, seguindo as flutuações da vida intelectual da raça. Nos seus pontos mais altos, os nomes dos místicos estão agrupados mais densamente, nas suas descidas eles se tornam cada vez mais raros, nos pontos mais baixos eles desaparecem. Entre o primeiro século d.C. e o décimo nono, esta curva exibe três grandes ondas de atividade mística além de muitas flutuações menores. Elas correspondem ao final dos períodos Clássico, Medieval e da Renascença na história: atingindo seus pontos mais altos nos séculos III, XIV e XVII. Em um aspecto, no entanto, a curva mística diverge da histórica. Ela se eleva ao seu ponto mais alto no século XIV, e não se aproxima novamente do nível que lá atinge; pois o período medieval foi mais favorável ao desenvolvimento do misticismo do que qualquer época subsequente tem sido. O século XIV é tanto o momento clássico para a história espiritual de nossa raça quanto o XIII é para a história do Gótico, ou o XV para a da arte italiana.
Os nomes em nossa curva, especialmente durante os primeiros dez séculos da era cristã, são frequentemente separados por longos períodos de tempo. Isso, é claro, não significa necessariamente que estes séculos produziram poucos místicos: apenas que poucos documentos relacionados a eles sobreviveram. Não se tem agora meios de saber, por exemplo, a quantidade de verdadeiro misticismo que pode ter existido entre os iniciados dos Mistérios gregos ou egípcios; quantos contemplativos avançados mas inarticulados havia entre os Neoplatônicos Alexandrinos, entre as comunidades pré-cristãs de contemplativos descritas por Fílon, o judeu alexandrino profundamente místico (20 a.C.-40 d.C.), ou as inumeráveis seitas gnósticas que substituíram no início do mundo cristão os cultos de mistério órficos e dionisíacos da Grécia e da Itália. Muita inspiração mística real deve ter havido, pois se sabe que desses centros de vida vieram muitas das doutrinas mais amadas por místicos posteriores: que os Neoplatônicos lhes deram os conceitos de Ser Puro e do Um, que o Novo Nascimento e o Casamento Espiritual foram prenunciados nos Mistérios, que Fílon antecipou a teologia do Quarto Evangelho.
Ao se estar no início do período cristão se veem três grandes fontes de onde a sua tradição mística poderia ter sido derivada. Essas fontes são a doutrina ou pensamento grego, oriental e cristão - ou seja, primitivo apostólico. Na verdade, todos contribuíram com a sua parte: mas onde o Cristianismo deu o novo impulso vital à transcendência, o pensamento grego e oriental forneceram as principais formas nas quais ela foi expressa. A religião cristã, por sua própria natureza, tinha um lado profundamente místico. Colocando a personalidade de seu Fundador fora dos limites da presente discussão, São Paulo e o autor do Quarto Evangelho são instâncias óbvias de místicos de primeira linha entre os seus primeiros missionários. Muito da história interna do cristianismo primitivo ainda permanece desconhecida para nós; mas no que já foi descoberto se encontram numerosas, ainda que espalhadas, indicações de que a vida mística era indígena na Igreja e o místico natural tinha pouca necessidade de procurar inspiração fora dos limites de sua crença. Não apenas as epístolas de São Paulo e os escritos joaninos, mas também os fragmentos litúrgicos mais antigos que se possui, e a poesia religiosa primitiva como as "Odes de Salomão" e o "Hino de Jesus," mostram quão congenial era a expressão mística para a mente da Igreja; quão facilmente essa Igreja podia absorver e transmutar os elementos místicos do pensamento essênio, órfico e neoplatônico.